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Economia

Novo Desenrola pode pressionar inflação ao liberar renda das famílias, alertam especialistas

O Novo Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas, pode ampliar a capacidade de consumo das famílias brasileiras ao reduzir o comprometimento da renda com parcelas em atraso — e, com isso, criar pressões inflacionárias que exigirão atenção redobrada do Banco Central, segundo economistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. O mecanismo é direto: ao aliviar o orçamento de devedores negativados, o programa libera renda que pode se converter em maior demanda por bens e serviços em um momento em que a renda das famílias já cresce em ritmo acelerado.

Por Eu Googlando IA3 min de leitura
Novo Desenrola pode pressionar inflação ao liberar renda das famílias, alertam especialistas
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  • O Novo Desenrola pode liberar renda das famílias ao reduzir o comprometimento com dívidas em atraso, criando pressão sobre o consumo e, consequentemente, sobre a inflação.
  • Alexandre Albuquerque, da Moody's Ratings, alerta que o alívio é parcial: a dívida diminui, mas não desaparece após a adesão ao programa.
  • Luis Otavio Leal, da G5 Partners, classifica o Desenrola como desfavorável ao Banco Central por seu potencial impacto inflacionário.
  • A postura conservadora dos bancos na concessão de crédito pode limitar, no curto prazo, efeitos mais intensos sobre os preços.
  • A renda disponível bruta das famílias registrou crescimento de 11,1% em março, sinalizando pressões de consumo mesmo antes do programa.
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Programa pode reativar dinâmica de consumo

Em meio a uma inadimplência elevada, os bancos têm adotado postura mais conservadora na concessão de crédito, contribuindo para um descasamento entre o crescimento da renda e do consumo das famílias brasileiras. O Novo Desenrola pode reverter esse cenário ao restabelecer a relação entre alívio no orçamento e aumento da demanda por bens e serviços.

O mecanismo é relativamente simples: ao reduzir o comprometimento da renda com o serviço de dívidas vencidas e em atraso, o programa amplia a renda disponível das famílias para outras despesas. Dois economistas consultados pelo Broadcast convergem na avaliação de que o efeito sobre os preços precisará ser monitorado de perto pelo Banco Central.

"Isso pode se traduzir em maior consumo ou na contratação de novos empréstimos, a depender do conservadorismo dos bancos", afirma Alexandre Albuquerque, vice-presidente e analista sênior da Moody's Ratings. Segundo ele, a tendência, considerando a dinâmica dos últimos 18 a 24 meses, é que as instituições financeiras mantenham cautela, sobretudo em linhas de maior risco, como crédito pessoal.

Albuquerque chama atenção para um detalhe importante: embora o tomador deixe de constar como negativado após aderir ao Desenrola, a dívida não desaparece completamente. "Ela diminui, mas continua existindo", ressalta. O alívio, portanto, é parcial — ainda que significativo para o orçamento das famílias.

Riscos para a política monetária

Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, vai além e avalia que o programa é diretamente desfavorável ao Banco Central. "Acho o Desenrola ruim para o Banco Central, pois impacta a inflação", resume. Para o economista, o crescimento da renda já apontava, antes mesmo do início do Novo Desenrola, para aumento do consumo — e o programa adiciona pressão sobre essa tendência.

Essa preocupação ganha contorno quando se observa a trajetória recente da renda disponível bruta das famílias. O indicador — que reúne renda do trabalho, transferências fiscais e benefícios, líquidos de impostos — registrou crescimento de 11,1% em março, segundo dados disponíveis à época da apuração. Esse ritmo de expansão, por si só, já sinalizava pressões potenciais sobre o consumo antes da entrada em vigor do programa.

A postura conservadora dos bancos pode atuar como um freio natural sobre os efeitos do Desenrola. Se as instituições financeiras mantiverem restrições ao crédito, a renda liberada pelo programa tende a se converter em consumo imediato em vez de novo endividamento — tornando o impacto inflacionário mais concentrado, embora não necessariamente menor.

Para Albuquerque, o cenário de cautela bancária limita, ao menos no curto prazo, a possibilidade de um ciclo de superendividamento. No entanto, o analista da Moody's e o economista-chefe da G5 Partners concordam que o Banco Central precisará acompanhar de perto os dados de inflação, consumo e renda nas próximas semanas para avaliar se o programa está gerando pressões de demanda acima do esperado.

O programa surge em um momento em que a economia brasileira busca recuperar o dinamismo do consumo interno. Embora seus objetivos sociais — melhorar a situação financeira de famílias endividadas — sejam amplamente reconhecidos, a implementação em um cenário de renda em expansão coloca a iniciativa no radar da política monetária.

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